Contos da Lia

Quarta-feira, Agosto 08, 2007
Agora quem quiser ler meus continhos pode acesar meu site:

http://liadrumond.com/

Um abraço!

posted by Lia Drumond on 6:52 PM

(4) críticas:

Quarta-feira, Dezembro 13, 2006

Namoradinha

Uma menina oriental. Olhos felinos e timidez símia. Longos cabelos negros lisos como a seda. Ninguém a conhecia direito, era quieta demais. Não perguntava nada, parecia que já sabia tudo. Estudava por que assim tinha de ser. Seu pai a levava todos os dias até a porta da escola. Não havia um beijo de despedida. Apenas o olhar firme e severo acompanhando a garota até que passasse para dentro dos portões. Nunca comprava comida na cantina, mas sempre tinha um belo sanduíche na lancheira. Não tinha amigas, não lia livros para se distrair. Parecia que sempre olhava para o nada. Estranha e fascinante. Era a minha namorada... Mas, claro, ela não sabia disso.

Quando a fila se formava para subirmos para a classe, eu ficava ao seu lado por que era quase da sua altura. Era uma fila pra meninos e uma pra meninas. Ela ficava ao meu lado. Eu sentia uma vontade enorme de pegar em sua mão, mas tinha vergonha dos meus amigos. Eles não gostavam de meninas. Preferiam a nudez das mulheres adultas nas revistas que roubavam dos irmãos mais velhos ou dos pais. Sempre que o assunto era mulher, as tais mulheres eram artistas de cinema ou novela. Nunca era real, nunca era próximo. E eu sentia muita vontade de segurar a mão dela... Pensei em escrever uma carta e pesquisei por quase um mês os poemas românticos mais esquisitos que encontrei nos livros da minha mãe. Castro Alves, Vinicius de Moraes, Chico Buarque... Eu não entendia nada de amor e aquelas palavras não diziam o que eu sentia de verdade.

Escrevi com minhas próprias palavras que ela era linda e que eu sentia muita vontade de segurar sua mão enquanto estava ao seu lado na fila todos os dias. Escrevi que gostaria de namorá-la e que pediria ao seu pai, se ela quisesse. Escrevi que sonhava com ela quando dormia e que minha felicidade era acordar pra chegar na escola e estar perto dela. Não sabia como entregar a tal carta. Levei dias com ela na mochila, esperando o momento certo. Qual seria o momento certo? Várias vezes eu quase entreguei. Cheguei a suar frio duas vezes em que o envelope estava na minha mão e ela estava ao meu lado na fila. Pensei em colocar em sua mão, mas ela poderia se assustar e jogar o papel no chão. Pensei em colocar na sua mochila, mas ela poderia não ver. Decidi colocar em sua carteira durante a hora do recreio. Coloquei embaixo de seu estojo de canetas e não teria como ela não enxergar. Foi o dia mais aflito da minha infância.

No final do recreio, eu subi as escadas com as pernas moles. Ela estava ao meu lado na fila e, como se advinhasse o que aconteceria, me olhou. Ela raramente olhava pra alguém diretamente. Quando nosso olhar se encontrou, ela baixou os olhos e virou pro outro lado, envergonhada. Se só de me olhar ela ficava assim, imagine quando ela lesse a carta! Que vergonha... Eu suava frio e meu estômago parecia enjoado. Eu sentava duas carteiras atrás dela e passei por sua carteira quando fui pro meu lugar. Vi a carta e senti vontade de sumir com ela, mas era tarde demais. Ela sentou na cadeira e viu a carta. Ela abriu e leu. Eu vi suas bochechas ficarem vermelhas e depois as orelhas. Ela se encolheu na carteira e olhava em volta devagar, estava muito vermelha, devia estar com muita vergonha... Eu a observava e percebi que ela, mesmo muito vermelha e se escondendo, estava com um leve sorriso no rostinho delicado. Parecia feliz por saber que eu a adorava e que sentia vontade de segurar sua mão. Será que ela viria falar comigo? Provavelmente, não. Ela era muito tímida...

Foi então que eu lembrei de uma estupidez muito grande. Eu tinha esquecido de assinar a carta, ou seja, tinha que fazer tudo de novo... Mas, depois de ver o que causei naquela japinha, fiquei com medo. Ela tinha mudado depois que recebeu a carta. Seu olhar, que era vazio, parecia que agora buscava um outro olhar. Ela sorria para todos os meninos que ficavam perto dela durante a formação da fila. Deixou de ter vergonha e eu, morria de ciúmes... Não era mais a menina por quem eu tinha me apaixonado. E, por despeito e medo, nunca a deixei saber que eu era o autor da carta.


posted by Lia Drumond on 12:07 PM

(20) críticas:

Segunda-feira, Outubro 30, 2006
Medo de escuro - Parte 2

Escorregava da cadeira. Um vento cada vez mais frio fazia seu corpo ficar arrepiado. O coração já não estava tão acelerado, mas o medo persistia. Tentava forçar os ouvidos para reconhecer o lugar onde estava. Sabia que tinha terra, mas não ouvia pássaros ou insetos. O cheiro era de chuva, terra molhada. Sem barulho de motores, sem buzinas. Sem vozes, passos, ruídos. Apenas o vento soprava e fazia um barulho abafado dentro de seu capuz.. Conforme anoitecia, o tempo esfriava. E nada mais acontecia...

O telefone de um de seus sequestradores toca. Seu coração dá um pulo e volta a bater como se ele tivesse corrido por kilômetros. Tenta ouvir o que falam, mas está tão ansioso que seu batimento cardíaco soa como a bateria da Beija-Flor dentro da sua cabeça. Fica mais desesperado ainda. Quando aquilo acabaria? Que estava acontecendo? Chegou a desejar que, se fosse pra morrer, que acabassem logo aquela agonia.

- Está quase.. Ainda não. Mas vai dar certo. Pode confiar, já fizemos muitas vezes antes... - Pausa - Se não der certo, garantimos devolver o pagamento, e isso nunca precisou acontecer.

Aqueles homens estavam ganhando dinheiro para mantê-lo ali. Já sabia que era um caso de violência. Seria morto. Por que ainda estava vivo? Como seria sua morte? Tiro? Espancamento? Facas? Estrangulamento? Como seria encontrado? Sua mulher?Seus filhos crescidos e indiferentes? Será que chorariam sua falta? Não conheceu os netos que o futuro lhe daria. Morreria sem saber se sua linhagem teria continuidade.

Quando começaria sua morte? Por que não lhe davam um tiro e terminavam o serviço? Ouviu os homens se movimentando e sentiu um forte cheiro de gasolina por perto. Seria queimado! Deus!!! Queimado vivo? Isso seria extremamente doloroso. Por que tanto requinte de crueldade? Será que o matariam primeiro e queimariam depois? Cheiro forte de gasolina... Esperava que jogassem gasolina em seu corpo. Seu coração estava tão acelerado que seu peito começou a doer. Sentiu algo molhado e quente no meio de suas pernas. Não era gasolina, era seu pânico em forma de mais um vexame. Se bem que... Estava prestes à morrer... De que valeria sua dignidade? De que valeria qualquer coisa nesse momento?

Seu peito dóia. Seu braço adormecia. Seu coração parecia que estava explodindo. Sentiu a boca seca... Cada vez mais seca. Seu ombro doía muito, seus ouvidos não ouviam mais nada além do seu coração. E ele batia cada vez mais forte nos seus tímpanos. Sentiu uma tontura e caiu. Nunca mais se levantou...

- Quanto tempo já passou?
- Acho que uns vinte minutos...
- Vamos trocar as calças dele de novo?
- Não, não temos mais uma igual à que ele estava, pode levantar suspeitas...
- É, vão pensar que ele se mijou durante o enfarte. Vambora. Tira o capuz e leva a cadeira.

posted by Lia Drumond on 11:00 AM

(7) críticas:

Quinta-feira, Outubro 19, 2006
Medo de escuro - Parte 1

Foi agarrado pelo pescoço enquanto corria fugindo da chuva. Enfiaram um capuz em sua cabeça e o arrastaram para outro lugar. Ficou apavorado, toda a racionalidade lhe fugiu da consciência quando não pôde enxergar para onde estava sendo levado. Poderia ser um sequestro, já que está na moda da bandidagem. Poderiam tê-lo confundido com outra pessoa jurada de morte. Poderia ser a mafia, o marido de sua amante, um bandido contratado pela sua esposa que descobriu toda a traição e preferia a viuvez a dividir os bens, poderia ser uma abdução alienígena.

Apesar da chuva, seu corpo queimava num calor cheio de calafrios. Era tensão, medo. A respiração era difícil dentro do capuz, parecia sufocar, mas não sufocava por que o ar entrava por baixo. Nem pensava em tirar o capuz. Seguravm seus braços, não estava algemado ou amarrado, mas não se atreveria a tirar o capuz. Queria que fosse um pesadelo, que despertasse com um travesseiro em cima da cara e tudo não passasse de um sonho ruim. Deveria falar ou esperar que lhe perguntassem alguma coisa? Para onde o estavam levando?

Escorregou, mas não caiu. Os homens que o levavam pelos braços evitaram a queda. Por baixo do capuz, conseguia vez um pouco do ambiente por onde passavam. Parecia que estava andando sobre terra molhada. Seria o morro? Talvez um pântano ou um local onde exterminam e *desovam* pessoas. Sentiu vontade de mijar. Era incontrolável e ele acabou fazendo nas calças. Era o medo. Não teve nem coragem para pedir que o levassem para um banheiro. Sentia-se apavorado e humilhado. Não mijava nas próprias calças desde que tinha onze anos e andou numa montanha-russa pela primeira vez. Começou a chorar, mas baixinho. Tinha medo de irritar seus raptores. Não diziam nada. Ele não dizia nada? Naquele lugar de terra úmida, tinham o feito sentar no que parecia ser uma cadeira. Era dia ainda.

- Vamos esperar?
- É, temos que esperar ligarem.

Foi tudo o que escutou os dois conversarem durante todo o tempo. De quem seria a ligação que estavam esperando? Até que horas ele ficaria encapuzado, mijado e sentado ali? Sentiu que tentavam lhe tirar as calças. Era só o que faltava: um estupro. Tentou resistir, mas não tinha coragem. Eram dois contra um. A violência poderia ser bem maior se ele resistisse. Ficou sem calças e esperava que lhe arrancassem a cueca e lhe fodessem como aqueles pederastas dos filmes sobre presidiários.

- Fica calmo, florzinha. A gente não quer que todo mundo fique sabendo que você se mijou todo de medo.

Vestiram-lhe uma calça seca. Quem seria todo mundo?

posted by Lia Drumond on 4:59 PM

(3) críticas:

Segunda-feira, Outubro 16, 2006
Dinheiro na mão

Queria se transformar em qualquer coisa bonita, queria ser admirada pelos adjetivos que nunca usaram com ela. Queria ser desejada, invejada, imitada. Queria ser a rainha da Primavera, da bateria, do bairro, de qualquer coisa que significasse : Ela é bonita! Sentia-se feia e assim era. Seu rosto era todo esburacado, cheio de perebas roxas de acne cutucada e cicatrizada, seu nariz era largo e caído, sua boca quase não tinha lábios, usava óculos fundo de garrafa, seu cabelo liso sempre parecia ensebado, seu corpo era redondo e não se podia distinguir onde terminavam os seios e começavam as pernas. E pra piorar tudo, ela tinha mau hálito e um problema fonológico que a fazia pronunciar as palavras como o Frajola. Cuspia enquanto falava.

Trabalhava na expedição de uma grande loja de enfeites, não tinha que lidar com o público e tinha poucos colegas por perto. Seu trabalho podia ser resumido em identificar os produtos, escrever o endereço dos compradores nas etiquetas de endereço e despachar as mercadorias no fim do dia. Não costumava sorrir e era muito tímida. Não tinha amigos e se isolava da família. Tinha uma irmã mais velha que era linda e adorava humilhá-la. Seus pais eram evangélicos fervorosos e a obrigavam a acompanhá-los ao culto toda semana. Ela ouvia às palavras do pastor e sua fértil imaginação transformava o texto em sacanagens, como se ele estivesse lendo um poema erótico. Ela adorava uma putaria, mas escondia isso como se fosse um segredo mortal. Morria de medo de morrer virgem.

Já experimentara apelidos como rolha de poço, tranca-rua de festa junina, chupeta de mamute. Já tinha ouvido que ela tão feia que parecia que lhe tinham colocado fogo na cara e apagado com um tamanco. Já tinha sido rejeitada até pelo mais feio de todos os garotos que conhecia. Pensava em juntar dinheiro e contratar um puto para tirar-lhe a virgindade, mas era muito caro bancar o puto e o motel onde teriam de ir. E, além do mais, seria o cúmulo da rejeição ter de pagar para um homem lhe querer apenas para sexo. Mas, se fosse a última opção...

Naquela manhã, caiu da cama antes do relógio despertar no horário de sempre. Exatamente sete minutos antes. Bateu o lado do rosto e foi para o trabalho com o olho começando a ficar roxo. Pegou o ônibus mais lotado que o habitual e chegou atrasada. Seu chefe reclamou, apesar de terem sido apenas dez minutos. Quando chegou ao seu departamento, encontrou uma caixinha de veludo vermelho com uma etiqueta. Na etiqueta estava escrito seu nome, era um presente. Imaginou que era mais alguma gozação de algum colega. Pensou em não abrir, mas abriu. Dentro tinha um globo de neve, desses que vendiam aos montes na loja. Só que este tinha uma linda fada lilás sentada num poço. E havia uma placa sobre o poço que dizia: Poço dos Desejos. Ela sorriu, não era uma brincadeira com seus complexos, era apenas um belo agrado. Colocou em sua bolsa e levou pra casa.

Antes de dormir, procurou uma escova de cabelo que estava em sua bolsa e notou o globo de neve. Pegou e ficou admirando a graciosidade do objeto. Imaginou que se pudesse, atiraria uma moeda ao poço e faria um desejo. Quem sabe o que poderia acontecer? E, logo depois desse pensamento, viu cair uma flor do cabelo da fada dentro do poço. Pensou: ?Esse negócio não presta! Nem mexi e já está quebrando...?

No dia seguinte, achou um bilhete de loteria na rua e, por curiosidade, conferiu o resultado. Não acreditou quando viu que estava com o bilhete premiado. Sentiu-se tonta e pediu ajuda para uma atendente da casa lotérica. Sim, ela tinha acabado de ganhar quase vinte milhões de reais. Sim, ela estava milionária. Sim, agora ela era poderosa. Mal podia esperar para ter o dinheiro em mãos, contar para a família, se demitir do emprego e mandar o patrão pro inferno. Poderia fazer qualquer coisa. Poderia ficar bonita como sempre desejou, fazer plástica no nariz, lipo na pança e escova no cabelo. Poderia ser feliz, finalmente.

Alguns meses depois de ter faturado uma fortuna e continuava a mesma pessoa de sempre, só que com roupas mais caras. Não fez plástica ou escova no cabelo. Foi ao salão de beleza apenas uma vez, para ver como era... Mas, algo realmente assustador aconteceu depois de ter ficado podre de rica: agora todos a queriam e desejavam. Ninguém mais fazia piadas sobre sua obesidade ou seu nariz de coxinha. Seu dinheiro tinha transformado sua vida. Morava sozinha, tinha homens que a queriam, sua irmã exibida e metida a idolatrava e sua família concordava com tudo o que dissesse. O dinheiro não lhe trouxe a beleza, pois sabia que continuava a mesma toda vez que se olhava no espelho. O dinheiro lhe trouxe a hipocrisia que as pessoas têm para oferecer. Era assustador.

Mas, por pior que fosse, nunca mais seria: Jesus me ama - *mas ninguém me come...*

posted by Lia Drumond on 11:42 AM

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Segunda-feira, Outubro 09, 2006
Martírio

Não usava nada além de um pedaço de pano para cobrir o sexo, estava machucado, torturado, quase inconsciente. Carregava um enorme peso, sem muita noção do que era, apenas imaginava que logo tudo acabaria. Sentia-se tonto de fraqueza, o calor era escaldante e muitas pessoas faziam barulho ao seu redor. Choro, grito e desespero. Muita gente estava ali. Ele não conseguia se lembrar o que tinha feito. Tudo doía em seu corpo. O cume do monte estava próximo, logo tudo acabaria. E então ele percebeu quem era.

Não, ele não era mais o mesmo. Onde estava seu quarto? Ele pensou que estava sonhando, mas a dor que sentia era bem real. Ele se olhava sem acreditar. Aquelas não eram suas mãos, aqueles pés descalços eram de outra pessoa mas andavam como se fossem dele. Ele queria um espelho, mas naquela situação seria impossível conseguir algum. Tentou falar com uma mulher que chorava enquanto o seguia, mas o som que saiu de sua boca era incompreensível, nunca ouvira aquele idioma. E a mulher parecia entender, falava e gesticulava como se o conhecesse.

Quando chegou ao alto do monte sentiu que conhecia aquela história, mas não era possível. Aquilo era um sonho. Ele não seria crucificado de verdade. Ele não era filho do Pai. Mas... dizem que todos somos. Será que ele era Jesus? Será que aquela era uma lembrança de sua vida passada? O que estava acontecendo? Enquanto ele, atordoado, tentava pensar no que estava acontecendo, soldados romanos erguiam a cruz que ele tinha carregado até ali. Puxavam seus braços para cima e, quando enfiaram estacas em suas mãos, desmaiou de dor.

Quando seus olhos abriram, achou que o pesadelo tinha chegado ao final. Mas tinha acordado apenas do desmaio. Estava pregado numa cruz. Pessoas choravam aos seus pés ensanguentados, um maluco recolhia num cálice o sangue que pingava, outros faziam discursos num idioma totalmente estranho e ele estava ali, pregado na cruz. Não conseguia entender por que esse pesadelo não acabava, por que ele não acordava e passava a noite inteira jogando video game. Jurou que, quando acordasse, nunca mais dormiria novamente. Sentia muita dor para aquilo tudo ser um sonho. Sentia a respiração cada vez mais difícil. Sentia que estava morrendo. Sentia cada agonia de alguém que está quase morrendo. Sentiu quando o corpo não sentia mais dor. Sentiu quando o seu coração bateu cada vez mais devagar. Sentiu o fim. Morreu.

Só acordou no mundo que conhecia depois que morreu. Nunca conversou com ninguém sobre o sonho que teve. Mas, de alguma maneira, sabia quais pessoas tiveram o mesmo sonho que ele sonhara aquela noite. Algo em suas expressões mudava para sempre. E ele sabia que sempre, toda noite, alguém estava sonhando o sonho do maior mártir que a história conheceu. Talvez era por puro sadismo de seu Pai, que dizem ser o Pai de todos.

posted by Lia Drumond on 4:26 PM

(5) críticas:

Quarta-feira, Agosto 30, 2006
Vidas inúteis são iguais

Quando escrevia tinha certeza que todas as suas palavras não eram inéditas, por que nada é inédito. Escrever sobre a vida ou morte? Era só escolher. Mesmo sendo única, cada vida era igual. Nasce, cresce e morre. O que está no meio disso pode ser completado de acordo com a imaginação de cada um. Esse preencher é que faz cada vida ser diferente, cada conto ser uma nova estória. E ela preenchia a vida com letras. Mundos que só existiam na sua imaginação, fatos que só aconteceram nas linhas que conheceu.

Livros eram seus brinquedos favoritos. Sentia muita vergonha dos elogios que as tias lhe faziam enquanto apertavam suas bochechas.

- Ai, que menina linda! Esse redemoinho na sua franja faz seu cabelo ficar tão bonito! EU passo meia hora fazendo escova para conseguir isso!

Ela se escondia no quarto quando as visitas chegavam. Era chamada de caipira pelas primas mais velhas e mais sociáveis. Ela escrevia poemas sobre a chuva, sobre flores e sobre seu gato. Uma vez ela plantou um pé de feijão no algodão, essas *experiências científicas* que a escola pede para fazer em casa como tarefa. O pé de feijão cresceu e ela o transferiu para um pote com terra. E, regando e cuidando todos os dias, acompanhou o crescimento de três viçosas vagens. Ela lia para os brotos, elogiava o crescimento. Conversava com a vida que ela acreditava ter criado.

Quando colheu e deu o resultado de seu trabalho para a mãe, ouviu:

- Que eu vou fazer com três vagens? Não está vendo que eu estou ocupada?

Depois desse dia, além dos livros, ela ficou vidrada em plantas. A razão daquela *experiência científica* não era ver uma semente germinar, mas saber se a vida que criara era útil. Assim como as pessoas vivem sem motivos, a sua vagem morreu sem utilidade. Esse contato com a morte foi o primeiro de uma sequência. E foi então que ela começou a escrever o livro entitulado: Vidas inúteis são iguais.

posted by Lia Drumond on 11:58 AM

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Segunda-feira, Agosto 28, 2006
Todo dia morre um crítico

Mais um comentário ofensivo e hostil. E ela enlouquecia de raiva ao saber que o anonimato protegeria e que nesse novo mundo virtual não haveria qualquer punição. Livre arbítrio, liberdade de expressão. Liberdade de ofensa? Aparentemente sim. Já esperava que, mais cedo ou mais tarde, pré-adolescentes com muita energia e pouca atenção dos pais passassem seu tempo danificando sua página na internet. É o que eles chamam de *pixar* a página.

Por capricho de algum líder regional de coisa alguma, ela era vítima da raiva que os pré-adolescentes precisam extravazar. E não poderia mudar isso, pois era complicado convencer os outros (principalmente quando são muito jovens) que é inútil agredir para se autoafirmar. Teria de penar nas mãos de crianças retardadas até que elas enjoassem do brinquedo ou encontrassem outro Cristo para martirizar. E de vez em quando era divertido revidar os comentários sanguinolentos que podiam ser desde solicitações de chupadas até ameaças de morte virtual.

- Vamos detonar sua página!

Claro que não era escrito assim. A nova linguagem escrita usada pelos pré-adolescentes na internet excluía a maior parte das letras das palavras e substituia algumas por outras. O significado era o mesmo: te agredimos gratuitamente por que não temos maturidade para encontrar o problema em relação a você e resolvê-lo de maneira civilizada.

Um dia ela recebeu uma tecla mágica pelos correios. Era como um periférico que deveria ser instalado e poderia ser usado como uma tecla extra do teclado. Mesmo sem saber para quê servia a tecla, ela instalou. O programa de instalação explicava o funcionamento como: clique sobre qualquer link indesejável e o destrua. Ela usou no link de um dos pré-adolescentes que viviam despejando agressões nos espaços para cometários de sua página. Mesmo sabendo que o link do tal fulano não era real, ela clicou. Ouviu um *plic*, e a mensagem *Indesejável destruído* apareceu na tela.

Só para extravazar o estresse que causavam, e sem acreditar que a tecla realmente os destruísse, ela clicou sobre todos os links que os pré-adolescentes deixavam para assinar suas ofensas. Passou mais de uma hora nesse exercício, e imaginava que cada um deles sumiria pra sempre de sua caixa de comentários. Depois disso continuou seu trabalho no computador normalmente. Desconectou o novo equipamento de seu computador, desligou tudo e foi dormir.

No dia seguinte, em todos os jornais estava a mesma notícia assustadora: *Vários adolescentes morreram ontem enquanto usavam a internet.* Ela prestou mais atenção:

- Aparentemente mais de 30 adolescentes morreram ontem entre as 17 e 18 horas enquanto navegavam pela internet. Todos morreram misteriosamente da mesma maneira: sofreram uma forte pressão no crânio, como se algo esmagasse suas cabeças...

Ela riu. Riu muito. Riu durante o dia inteiro e, quando entrou na internet para ver seus sites, não havia nenhum comentário...

posted by Lia Drumond on 12:24 PM

(4) críticas:

Sexta-feira, Agosto 25, 2006
Marcus Negro

A noite chegou e ele tremeu. Não era a primeira noite em seu corpo tremia todo de pavor. Todos dormiriam e só ele veria mais uma vez sua casa ser tomada por espíritos de prostitutas mortas e horrendas. E era por ele que elas vinham toda noite. Era ele que queriam atormentar. E conseguiam. Ele chorava de pânico, morria de nojo e todos achavam que ele enlouquecia.

Começou logo que se mudaram para aquela casa. Os médicos recomendaram os ares das montanhas para reestabelecer a saúde de seu pai. Como dinheiro não era problema, seu pai comprou a casa no lugar mais alto daquela típica cidade de montanhas. Construídas como chalés, as casas tinham lareiras e telhados muito inclinados. A cor da madeira emprestava às casas um ar de quem já nasceu na floresta. Um riacho nascia perto e o lugar tinha uma vista espetacular dos montes mais baixos e da floresta que rodeava todo o lugar.

Na primeira noite na casa, ele acordou os pais gritando feito louco.

- Tirem elas daqui!!! Socoooorrooo!!! Não sou eu! Não sou eu!
- Calma, meu filho. Você estava sonhando. Foi um pesadelo, calma!
- Não foi pesadelo, mãe! Tinham cinco fantasmas de mulheres, horríveis e podres. Elas sentaram na minha cama e me acordaram. Disseram que eu pagaria pelo que lhes fiz.
- Ah, rapazinho... Nessa sua idade é normal sonhar com mulheres. Agora volte a dormir que foi só um sonho ruim.

E quando sua mãe saiu do quarto, elas voltaram. Ele gritou novamente e a mãe voltou.

- Olha, mãe! Nào está vendo, ali? ? Apontava para um lugar em cima da porta do quarto.
- Não estou vendo nada, filho. O que você vê?
- São duas ali, mãe. Uma com o vestido amarelo imundo e a outra com um vestido vermelho manchado e rasgado! Vê? Elas têm um corte no pescoço e seus rostos estão apodrecendo! Não vê, mãe?
- Meu filho... Não vejo nada ali. Deixe-me ver se está febril. Está normal. Você comeu muita carne antes de dormir? Bebeu alguma coisa?
- Nada mãe. Eu estou bem, mas estou vendo aquilo. Por que a senhora não vê?
- Meu filho, você deve estar cansado. Reze um pouco para que os demônios não lhe atormentem o sono e tente dormir. Boa noite.

E ele fez isso. Enfiou a cabeça debaixo da manta que o aquecia e rezou, rezou muito. Rezou tudo o que sabia até que adormeceu. No dia seguinte não havia qualquer vestígio de que alguém além dele estivera no quarto. Procurou manchas de mãos ou de sapatos pelas paredes onde as horríveis mulheres andaram durante a noite. Não encontrou nada. Tentou esquecer daquilo durante o dia e quando a noite chegou novamente, sua mente já tinha considerado o ocorrido como um simples pesadelo.

Depois que todos adormeceram na casa ele sentiu um peso na cama, perto de suas pernas. Ele não queria abrir os olhos e o pavor da noite anterior lhe tomou os sentidos novamente. Ele resistia em seu travesseiro. Pensava que se elas acreditassem que ele estava dormindo de verdade, o deixariam em paz. Um cheiro podre de terra e carniça entrava pelo seu nariz fazendo seu estômago revirar. Ele não queria abrir os olhos, tentava resistir de qualquer jeito. Pensou em começar a rezar, mas alguma coisa gelada e mole lhe fechou a boca e então ele arregalou os olhos.

Duas mulheres saídas do inferno flutuavam acima dele enquanto duas o prendiam a cama e uma outra lhe calava com as poucas carnes esverdeadas das mãos mórbidas e ossudas. Ele não tinha o que fazer, não tinha como se soltar nem como gritar. Grunhia, gemia e tentava se debater, mas era em vão. Elas o prendiam e o encaravam com sorrisos diabólicos nos lábios roxos e machucados.

- Olá, Marcus Negro. Nós sabíamos que hoje você não escaparia.

Ele olhava para elas com lágrimas de pavor nos olhos. As vozes pareciam ser de todas, como se estivessem falando ao mesmo tempo, apesar de nenhuma ter mexido os lábios. Ele queria dizer que seu nome não era Marcus Negro, que elas estavam enganadas e atormentavam o homem errado. Seu sangue gelou quando as escutou responder seus pensamentos.

- Ah, você é Marcus Negro. Pode não se lembrar nessa vida, mas você é Marcus Negro. E nós teremos nossa vingança. Você matou todas nós aqui, nessa casa. Enterrou nossos corpos na floresta, sem um sepultamento digno. Juramos que quando você voltasse nós lhe atormentaríamos a alma até você morrer na floresta, junto de nossas covas.

Ele nada podia fazer. A força daquelas malditas mulheres era imensa. Ele aguentou as risadas e odores fétidos por toda a noite. Não pregou o olho por um minuto sequer, apenas assistiu ao show de horror das putas mortas. Só quando sua mãe entrou no quarto para acordá-lo é que os espíritos se foram. E a mãe ficou assustada com o estado do filho. Pálido como um fantasma, suando frio, lábios rachados e o corpo todo tremendo como se tivesse sofrendo de uma febre terrível.

- Meu Deus! Que aconteceu com você, menino? Não está com febre, por que está tremendo tanto?

- As..as...
- Fala, meu filho. Que aconteceu? Você não está bem, seu rosto está transformado!
- mu... mu...lheres.... fantasma....
- Você teve pesadelos de novo! Não deve ter dormido o resto da noite... Não posso atormentar seu pai com problemas, você sabe que ele está se recuperando da doença aqui. Nào pode se preocupar. O que você quer que eu faça, filho?

Ele olhou para ela com uma expressão de piedade, como se pedisse para que tivesse clemência. Não sabia o que ela poderia fazer para ajudar. Apenas tentou parecer melhor para preocupá-la menos e sair da cama. Foi para fora da casa e o ar da montanha na manhã ensolarada e fria o fez sentir-se melhor. Passou o dia sonolento. Foi até a igreja e rezou. Pediu proteção aos céus e voltou para casa. Quando a noite estava chegando, ele avisou que dormiria em outro quarto. Sua mãe entendeu e concordou, sem comentar o fato perto do pai.

A noite em outro quarto poderia ser tranquila e sem assombrações. Ele sentia medo, mas também muita esperança de que essa noite as coisas seriam calmas. Estava enganado. Assim que todos adormeceram e ele fechou os olhos, instantaneamente sentiu peso contra seu corpo e o gelo das mãos moribundas calando sua boca. E o ritual começou mais uma vez. Elas não lhe deixavam dormir em paz. Tocavam partes do seu corpo que nenhuma mulher tinha tocado. Faziam calafrios subir pela sua coluna estremecendo até o cérebro. Contavam histórias de assassinatos dos quais foram vítimas, com o hálito de carne podre misturada com fezes, rindo maliciosamente e diziam que ele era o culpado, afirmavam que ele era Macus Negro, um assassino de prostitutas. E o prendiam acordado na cama, sem dormir, até a noite terminar.

Quando sua mãe entrou no quarto para acordá-lo, encontrou mais pálido e mais abatido que a última noite.

- São os pesadelos de novo? Filho, você deve ir se confessar... O Padre é o único que pode te ajudar.

Mas ele não respondeu. Apenas saiu do quarto e, arrastando-se como um doente, deitou-se sob a sombra de uma árvore e adormeceu. Nada o perturbou enquanto dormiu durante o dia. Quando a noite chegou, ele estava sem sono, mas estava com medo. Sabia que aquilo continuaria enquanto ele estivesse naquela casa, ou enquanto estivesse vivo...

posted by Lia Drumond on 3:57 PM

(2) críticas:

Segunda-feira, Agosto 21, 2006
Oxum menina

Estava sambando no salto alto, na roda de samba do sábado à tarde. A mulata mais bonita da favela. Não era rica, mas com aquelas pernas nem precisava... Não tinha filhos, não era casada, nasceu para ser admirada... e era.
Ninguém sabia desde quando ela morava na favela, ninguém conhecia sua família. Não sabiam se ela tinha nascido ali, nenhum homem conseguiu ser seu namorado.

- Eita mulher metida. Se exibe toda pra todo mundo e não fica com ninguém. Deve achar que é a rainha dessa favela. Esses troxas ficam paparicando, enchendo a bola dela. Coitados! Ela nem enxerga...

Ela não ligava pra inveja das mulheres, não dava atenção aos galanteios dos homens. Às vezes brincava com as crianças por alguns minutos, mas nunca se envolvia muito com as pessoas. Não havia uma única pessoa que conhecia seu barraco por dentro. Ninguém sabia o que ela fazia para viver. Sabiam apenas seu primeiro nome, Madalena. E era tudo o que sabiam.

Despertava paixões, inveja, brigas entre casais. Alguns se perguntavam se ela sabia disso tudo, se ela causava essas confusões de propósito. Ela nunca falava de sua vida pessoal. Quando alguma mulher tentava se aproximar, saber intimidades, ela sempre dizia que tinha alguma coisa para fazer ou que a novela estava começando. Evitava proximidade.

Certo dia Madalena ficou doente. De um dia para o outro ela caiu de cama. As pessoas da favela só perceberam três dias depois, por que ela não saia de seu barraco. A porta estava trancada e tiveram de arrombar para entrar. E quando entraram tiveram uma enorme surpresa. Ela não dormia numa cama, dentro de seu barraco não era uma casa. Parecia um terreiro de candomblé, mas o único orixá que povoava o terreiro era Oxum.

Tudo era dourado, tudo era perfumado. Pedras que pareciam pepitas de ouro enfeitavam os cantos e as mesas. Espelhos de mão enfeitavam uma penteadeira cheia de perfumes e jóias. E Madalena estava deitada em almofadas ricamente bordadas em de cetim dourado. Delirava de dor, não conseguia impedir que as pessoas tocassem em seus objetos. Estava fraca, com frio e fome. Desmaiou.

Uma vizinha velha e sua neta estavam esperando Madalena acordar no hospital para onde a levaram, queriam saber quem poderiam chamar de sua família. Madalena não acordava. Médicos não sabiam dizer o que tinha acontecido com ela. Os exames não mostravam nada, nenhuma alteração em seu organismo que justificasse o coma. Ela estava em coma, sem ajuda de nenhum aparelho, mas estava cada vez mais fraca. A velha vizinha e sua neta espalhavam na favela que Madalena morreria, que ela tinha uma doença incurável.

No hospital Madalena era tratada como indigente. Não tinha família, nem sobrenome. Ninguém encontrou nenhum documento em sua casa que parecia terreiro. Ninguém sabia dizer qual era sua idade. A única prova da vida de Madalena era um pequeno caderno que ela guardava dentro de um pequeno baú, escondido embaixo de todas as suas almofadas douradas. E lá ela contava quem era, que idade tinha e qual era sua missão nessa vida. Lá estava a explicação para a decoração exótica de seu barraco. No caderno ela escreveu uma vez, para nunca se esquecer, da entrega que sua avó fizera quando ela nasceu.

Neta de mãe de santo. Sua mãe morreu quando ela nasceu. Sua avó entregou a vida da recém nascida para Oxum. E acreditava que Oxum viria ocupar aquela encarnação. E só estaria entre os vivos por três voltas da magia, o que significava vinte e um anos. Na segunda volta da magia, Madalena fugiu da avó para viver uma vida livre das obrigações com os fiéis que lhe procuravam para pedir ajuda no amor e nas finanças. Cada dia mais pessoas procuravam Oxum menina para pedir milagres. Por isso ela fugiu, mas sabia quem era. Tinha apenas quatroze anos quando ganhou o mundo para saber quem realmente era e do que realmente era capaz.

Não havia homem que resistisse, não havia mulher que não invejasse sua beleza. Ela tinha poderes que preferia manter em segredo. Já tinha ajudado muitas pessoas nos anos que esteve com sua avó. Queria viver livre como gente comum pelo tempo que lhe restava.

Quando a vizinha velha e sua neta foram visitar Madalena no hospital, os atendentes não sabiam informar seu paradeiro. Estava em coma e tinha desaparecido. Um mistério que levantou as suspeitas mundanas de sempre: tráfico de orgãos, tráfico de cadáveres para faculdades, livraram-se do corpo por que ela era pobre e não tinha família... Ninguém podia afirmar nada. Madalena simplesmente tinha desaparecido. E no dia em que a favela soube do fim de Madalena era um sábado. O samba foi triste, acabou logo. E durante a noite o barraco de Madalena incendiou, queimando qualquer vestígio de sua curta existência.

posted by Lia Drumond on 11:16 AM

(1) críticas:

Sexta-feira, Agosto 18, 2006
Corte o pescoço com o punhal e beba o sangue no cálice

Ele estava com muito frio, chovia e os ventos faziam um barulho triste na rua vazia. Ele estava com um casaco grosso e calças jeans, mas o frio parecia entrar nos ossos. Apesar de estar correndo, o frio o alcançava sempre que parava. Sua roupa estava suja de sangue e terra. Se escondeu embaixo de uma escultura que enfeita o meio da avenida. Carros passavam, para a maioria ele devia apenas se parecer com mais um mendigo bêbado que foge do frio. Ele tenta se lembrar do que aconteceu:

- Agora você mata cortando o pescoço com esse punhal e bebe o sangue que recolher nesse cálice.

Ela disse isso como se fosse algo natural nos dias de hoje. Eles tinham acabado de fazer amor num ritual muito louco, perto da fogueira que acenderam com madeira de carvalho e da mesa de pedra que montaram para as oferendas. Ele não sabia o que estava fazendo. Apenas se deixou levar pelas idéias dela. Tão fascinante, tão sexy, tão diferente. Encantadora. Enfeitiçadora.

Se perguntava se era isso. Será que ela o enfeitiçou e obrigou a fazer o que ela queria? Será que foi hipnose? Seu ceticismo o impedia de acreditar no que aconteceu. Tinha de ter uma explicação mais racional para aquela tempestade gelada. Onde ele estava?

Certo dia esbarrou numa moça que andava na calçada. As coisas dela caíram no chão e ele se apaixonou quando a olhou nos olhos. Amor a primeira vista, alta dosagem de feromônios, secura. Nunca soube explicar o que lhe encantava naquela moça pequena, de cabelos e olhos negros e pele muito branca. Ela falava pouco, gostava de cães e os cães pareciam adorá-la, até os mais ferozes.

Sua memória o confundia. Desde quando ele a conhecia? Sentia como se sempre a conhecesse e, ao mesmo tempo em que olhava o sangue em suas roupas, esquecia como era seu rosto. Quem era ela? Que sangue era aquele?

Sua memória parecia estar se apagando, ele tentava se lembrar do que fizera antes da tempestade começar, queria entender como havia chegado ali, embaixo daquela escultura urbana. Olhava o sangue em sua roupa, nas suas mãos. Sentia o gosto de ferro na boca, sabia que seu rosto estava sujo de sangue também. Que sangue era aquele? Não lembrava mais de onde viera o sangue.

- O que foi que eu matei? Quem era ela? Qual era mesmo o nome dela? Eu preciso me lembrar... Eu preciso saber o que aconteceu! Por partes, cara! Fica calmo! Primeiro: a gente foi para uma floresta para fazer um ritual... Como a gente chegou na floresta? Quando a gente decidiu ir? Calma! Tá... A gente foi pra floresta. Disso eu lembro. Lembro de estar numa clareira e de uma grande fogueira. Ela disse alguma coisa sobre a madeira de carvalho. Tinha uma caixa e alguma coisa se debatia lá dentro, provavelmente o animal que matei. Que animal era aquele? Não lembro... Lembro de estar gozando profundamente e lembro de ouvir sua voz dizendo para matar com o punhal e beber o sangue com o cálice... O que eu matei? Um porco? Um cachorro? Lembro de estar ajoelhado e com gosto de sangue na boca. Lembro de bater a cabeça na mesa de pedra. E então eu já estava correndo por aqui. Será que eu bati a cabeça com força e ela me trouxe para esse lugar? Por que ela sumiu?

A tempestade aumentava. Chuva gelada, ventos cruéis. Ele queria chegar em sua casa, queria ver sua mãe. Não podia acreditar no que estava acontecendo. A sensação de estar fugindo sem saber quem o persegue. A sensação de algo errado. Ela o fez matar e beber o sangue de sua vítima. Ele jamais mataria com as próprias mãos, era muito urbano, abominava violência. Decidiu caminha até sua casa. Enquanto andava pela chuva o sangue era lavado de suas roupas e de seu rosto. Conseguia reconhecer onde estava, não era muito longe de sua casa.

Andava sob a tempestade e as lembranças pareciam desaparecer cada vez mais. Não lembrava mais como era a floresta onde esteve, não lembrava as palavras da pequena e esquisita garota que o tinha deixado de pernas moles, não lembrava de quem era o sangue que escorria de seu corpo para o chão da rua. Apenas sentia que estava sendo perseguido, que alguém o observava, como se houvesse um fantasma em sua sombra. Olhava para trás e não via nada além da neblina que a tempestade causava. Queria chegar em casa. Sentia medo.

Ninguém em sua casa conhecia a moça por quem ele estava tão apaixonado. Ele não falava sobre sua vida particular com os pais, muito menos com a irmã mais nova. Seu pai o viu chegar ao portão, preparou-lhe uma toalha:

- Pensei que sua mãe voltaria com você. Onde está ela?

- Não sei. Estou muito cansado, quero ir para o meu quarto. Por que mamãe voltaria comigo?

- Você telefonou mais cedo e pediu para ela encontrar você e sua namorada. Ela estava feliz por finalmente conhecer a moça!

Ele subiu e esperou sua mãe voltar. Esperou muito, até adormecer. Quando caiu a noite, e a lua cheia apareceu, seu corpo começou a doer, estranhas sensações invadiram seus pensamentos. Ele se tranformou num cão. E saiu para rua. Quando chegou até sua calçada, viu a moça. E descobriu por que os cães a rodeavam. Descobriu que alguns cães não tinham sido sempre cães. E descobriu que sua mãe agora era parte dela, parte de sua imortalidade e encantamento. Ele a seguiria como um cão por toda a eternidade, como os outros que mataram as prórpias mães e beberam seu sangue. Quem era ela? Sua mente canina não era mais capaz de responder. Nem de perguntar...

posted by Lia Drumond on 2:43 PM

(3) críticas:

Quinta-feira, Agosto 10, 2006
Predadoras

No metrô. E aquela sensação estava de volta. Sentia medo. Sempre que estava rodeada de gente, se sentia diferente de todo mundo. E todo mundo se sente diferente dos outros. Os outros. Sempre eles, nunca nós. Somos outros pra eles assim como eles são pra nós. Mas sabia que era diferente de verdade

Embaixo da sua pele não havia carne e osso. Não havia circulação de sangue para aquecer seu corpo, não havia raíz no seu cabelo. Era apenas aparentemente comum, apenas aparentemente. E ninguém percebia tanta diferença. As pessoas estão tão indiferentes que mesmo quando encostavam em sua pele gelada, não percebiam que algo ali não era natural. E ela sabia que essa indiferença lhe garantia segurança. Ninguém perceberia até que tudo estivesse acabado.

Esperava alguém. Ou algo. E, sentada no fundo do vagão, olhava pra frente e enxergava cada pessoa, tudo o que acontecia. Uma mãe com dois filhos, um casal de velhos, jovens, homens, mulheres, gordos, altos, feios... Cada um era diferente do outro. Singularidade. Ela já tinha visto um par de gêmeos uma vez. A única vez em que viu duas pessoas bem parecidas, mas não eram tão iguais.

Indiferença seria a arma que os protegeriam. Enquanto dominavam cada canto da cidade contavam com a indiferença que os seres humanos cultivavam pelo próximo para manterem suas identidades em segredo. Não estavam aqui para domininar o mundo, nem para escravizar a raça humana. Divertiam-se com os filmes sobre alienígenas feitos pelos terráqueos. Sempre a imaginação era mais criativa que as atitudes. Se o ET não quer devorar humanos, é amigo. Se quer, leva tiro. Primitivo, por isso mesmo lhes parecia tão engraçado.

Ela era uma peça chave para a evolução deles. Ou delas. Sua raça tinha evoluído para a extinção do sexo oposto. Nem se consideravam mais fêmeas. Por causa de uma doença genética que foi evoluindo e crescendo ao longo dos séculos, os bebês nasciam sem braços e pernas. Eram criaturas estéreis, que apenas pensavam e falavam. Eram inúteis para aquela sociedade, eram aberrações que precisavam ser evitadas. Muitas pesquisas e experiências foram feitas para que os bebês nascessem perfeitos, com 4 braços, 2 pernas e um rabo.

No início era uma espécie de clonagem, que deu origem aos mesmos seres das gerações anteriores, depois vieram as alterações genéticas que lhes conferiam poder de regeneração. À partir daí evoluíram para a reprodução assexuada por bipartição. Só que apenas as fêmeas se reproduziam por bipartição. Os machos ainda precisariam de uma fêmea disposta a ceder-lhe o corpo para gerar um filho. E elas preferiam a eternidade. Cada uma se transformava em duas novas. E através delas, se continuavam... As duas herdavam não apenas a genética, mas as memórias. E assim os machos desapareceram. Sua espécie era a repetição de gerações e gerações. Depois de muitos séculos renascendo, muitas não queriam mais viver.

E quando resolveram gerar novas vidas, cessar a própria continuidade, não havia nenhum macho no planeta. Não haviam sequer guardado esperma para o caso de no futuro alguém resolver gerar um novo ser. A ganância pela eternidade tinha cegado aquela espécie. E agora teriam que descobrir uma maneira de garantir reprodução sexuada. Tinham que achar machos compatíveis. E encontraram na Terra.

Apesar de humanos possuírem apenas 2 braços e nenhum rabo, a primeira tentativa de copular com um macho e gerar um novo Grueo foi um sucesso. O primeiro bebê Grueo nascido em séculos era uma fêmea, infelizmente. Mas possuia todas as características de sua raça. Inclusive a capacidade de iludir a visão humana. Ela estava lá, sentada no Metrô. Observando como cada pessoa era diferente e como essa singularidade significa a chave da evolução. Lição que seu povo aprendeu na prática...

posted by Lia Drumond on 11:56 AM

(1) críticas:




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